O que Bernardo Uglione diria à sua mãe? Não esquecemos de você Bernardo

Hoje Bernardo estaria com 13 anos e é difícil não se emocionar com a sua história. Este post foi escrito pela primeira vez em 27 de Abril de 2.014, e agora já é o terceiro em dois anos, que relembro este caso.

O motivo é que em muitos lares, crianças inocentes continuam sofrendo em silêncio, nos quartos frios e escuros de suas casas.  Não podemos nos esquecer destas crianças.

Post criado em 27 de Abril de 2.014

(Obs.: Esta narrativa é uma estória, e como toda estória, ela é fictícia. Não deve ser usada como argumentação em qualquer julgamento. O objetivo dela é a reflexão, sobre o que cada ser vivo pode fazer a fim de melhorar a sociedade em que vive, deixando o mundo mais humano e as pessoas mais amáveis.)

Leandro Tissiano

Imagine a cena:

Hoje, três anos depois desta tragédia, o Bernardo conversando com a sua mãe. A conversa seria mais o menos assim:

Bernardo: Mamãe, depois que a senhora morreu, as coisas pioraram para mim.

Mãe: Por que meu filho? O que aconteceu?

Bernardo: Até hoje eu não entendo o que aconteceu com a senhora naquele dia em que a senhora se matou com uma arma.

Mãe: O que é meu filho? Eu não me lembro de nada, a não ser de um barulho de tiro.

Bernardo: Então não foi a senhora que se matou?!

Mãe: Meu filho, por que eu me mataria? Eu amava a nossa família! Eu te amava, eu queria cuidar de você! Por qual razão eu faria isso?

Bernardo: Mamãe, eu  vi o papai na época, saindo da sala de casa. Ele disse que a senhora havia se suicidado.

Mãe: Ele disse isso? Quem mais você viu neste dia?

Bernardo: Não me lembro. O que eu me lembro é de ter visto só o papai.

Mãe: Estranho meu filho, mas qualquer pessoa poderia ter feito isso e deixado o local. Seu pai poderia ter aparecido depois. Ele não seria capaz de fazer algo assim…

Bernardo: Mas mamãe, eu também ouvi um barulho de tiro.

Mamãe: Filho, isso agora não vai mudar o que ficou para trás. Me diga uma coisa, a mamãe sabe que além de você me perder, que já foi uma dor insuportável, eu só não entendo como você pode me dizer que ainda assim as coisas pioraram para você!

Bernardo: Mamãe, depois desse dia eu fiquei muito assustado. Não conseguia dormir, fiquei muito perturbado, não queria fazer nada. Me fechei, não conseguia me relacionar com ninguém. Milhões de coisas passavam pela minha cabeça.

Mãe: E do que você mais se lembra meu filho?

Bernardo: Me lembrava de quando saíamos para brincar. Era maravilhoso quando a senhora passeava comigo mamãe. Quando a senhora me abraçava, quando a gente corria pelo parque, brincando entre as árvores. E no dia seguinte, eu não tinha mais nada disso.

Mãe: Como assim? O seu pai cuidou de você! Você o tinha por perto, não é mesmo?

Bernardo: Não mamãe. É nisso que eu queria chegar. Depois que a senhora morreu, o mundo desabou sobre mim. Me sentia todo o tempo sozinho. O papai se distanciou de mim. O nosso relacionamento esfriou completamente. Muitas vezes não me sentia parecer ser filho dele.

Andava pelas ruas, tentava fazer novas amizades com outras crianças, e até tive algumas mães adotivas, que permitiam que eu me hospedasse na casa delas. Isso me fazia me sentir mais humano, um pouco melhor!

Mãe: O seu pai se casou novamente?

Bernardo: Ele estava com uma outra mulher. Eu tentei me aproximar dela, mas acho que ela não gostava muito de mim. Em algumas festas eu agradecia a Deus por tê-la por perto, fiz até algumas homenagens à ela, mas eu acho que mesmo assim eu era um fardo para ela.

Mãe: Por que você pensa assim meu filho?

Bernardo: Ah! Não sei mamãe. Eu não podia entrar dentro de casa em certos horários, porque ela não gostava. Só quando ela estivesse em casa. Mas eu me perguntava: Mas aqui não é a minha casa? Por que eu não posso ficar dentro de minha própria casa? Foi então que eu percebi que ela não me aceitava como filho, diferente de mim, que à aceitei como mãe.

Mãe: Mas você ainda é tão jovem, por que morreu?

Bernardo: Não sei mamãe, o que sei é que foi muito bom o último dia quando eu saí com a minha madrasta. Ela estava me levando para sair de carro! E isso foi muito emocionante, porque raras vezes ela fazia isso comigo. Eu estava feliz da vida! Fui conversando um monte de coisas com ela pelo caminho.

Mãe: E sobre o que você falava?

Bernardo: Ah mamãe!  Como não era comum nos falarmos, eu falei um pouco de tudo, mas principalmente da vontade que eu tinha de estar juntos em família para nos divertir, igual quando a senhora fazia comigo. Mas, conversei tanto, que fui ficando com sono, e depois acordei aqui ao lado da senhora. Não me lembro de mais nada desse dia.

Mãe: Filho, vem alguém em nossa direção. Só um momento…

Estão nos chamando para ver uma coisa que nos interessa. Parece que prenderam seu pai e a mulher dele.

Meu Deus! Quanta gente presa! O que será que está acontecendo?

Filho, eles estão sendo acusados de terem tirado a sua vida! Eu não acredito!

Bernardo: Mas mamãe, o que eu fiz de tão errado? Será que foi porque eu quebrei sem querer uma flor na sala? Eu me lembro de ter pisado com o pé de barro dentro de casa. Será que pode ter sido isso?

Mãe: Não meu filho. Tem certas coisas que por mais que a gente tente entender o motivo, nunca teremos as respostas.

O que eu posso dizer à você é que eles estão sendo acusados de estarem disputando uma herança em dinheiro que estava destinada à você, meu filho.

Bernardo: Mas mamãe, eu não entendo. Existe maior herança do que um filho? Eu achava que eu era a herança do papai!

Mãe: Querido, o importante é que tanto eu quanto você sentimos um amor verdadeiro e sincero de um pelo outro. Nenhum dinheiro, nenhum interesse malévolo pode nos separar.

Eu te amo muito meu filho. Você é tão puro que não há maldade em seu coração. Nem mesmo no dia em que tiraram a sua vida, porque você não desconfiou de nada, nem mesmo de que  algo ruim pudesse acontecer com você.

Herança, testamento, inventário ou qualquer outra coisa meu filho, não é mais importante do que você para mim.

Tanto eu quanto você estamos em paz agora, eles não. Vivemos as nossas vidas fazendo o melhor que podíamos ter feito. Vivemos as nossas vidas genuinamente, sem disfarces, sem mentiras. Éramos o que éramos, sem máscaras e sem ilusões.

O que eu vejo daqui é que as pessoas só se preocupam com dinheiro e correm atrás dele a fim de terem conforto, luxo e muitos bens. Eles ainda não entenderam que mesmo que pudéssemos usufruir de tudo isso, em troca de termos uma família de verdade, unida e amável, não valeria à pena.

Hoje, pessoas assim são infelizes, sozinhas. Acabam morrendo sem ninguém ao lado delas, porque estão com os familiares brigando dentro dos cartórios junto com os seus advogados,  pensando no valor e na parte em dinheiro que cada um deles vai levar depois que morrerem.

Filho, o que importa é que nós estamos juntos agora. Eu te amo muito, e a propósito, que tal corrermos pelas árvores do parque novamente?

Bernardo: Ótima ideia mamãe! Mas desta vez, vai ser mais difícil a senhora me achar!

Te amo mamãe!

Leandro Tissiano

contato@proseudiaficarmelhor.com

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3 thoughts on “O que Bernardo Uglione diria à sua mãe? Não esquecemos de você Bernardo

  1. Na época, muitos outros casos horrendos de maus tratos com as crianças já existiam, mas o nível de crueldade nesse crime, eu não sei porque exatamente, mexeu muito comigo. Confesso que fiquei abalado e pensei nos meus filhos. Obrigado Ana por comentar.

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