E se a água do poço baixar…

Quando tudo era perfeito

Existia uma aldeia no meio do deserto. Nesta aldeia morava um homem de bom coração. Ele possuía em sua propriedade um poço de cem anos.

Esse poço pertencia aos seus pais que deixaram à ele de herança. Sua casa era muito frequentada. Carismático, amigo de todas as horas, sempre vinha em defesa de todos os que moravam naquela aldeia, em especial, a favor dos mais fracos e oprimidos.

Ele era muito procurado para aconselhamento, visto que era imparcial em seus julgamentos. Uma pessoa muito querida, educada e amorosa.

Água não faltava àquela aldeia, graças aquele poço. Mas, certo dia,um fenômeno estranho começou a ocorrer naquele poço. A água começou a baixar.

Quando as coisas começaram a mudar

Imediatamente o bom homem reuniu todos os maiorais daquelas famílias para discutirem o problema. Não chegaram a nenhuma conclusão que explicasse aquele fenômeno, mas acreditavam fortemente que aquilo poderia ser uma provação passageira. A água continuava a baixar.

Resolveram fazer uma festa agradecendo pela água que ainda restava, acreditando que ela voltaria. Tranquilizaram a aldeia, foram até a cidade grande.

Trouxeram de lá bandeirinhas, balões, enfeites, até mesmo uma piscina de bolinhas, algodão doce e cama elástica.

Resolveram pegar parte das economias e usar na compra de Smartphones, Tablets, Ipod, e construíram um site a fim de se modernizarem e acompanharem em tempo real a situação daquele poço.

Fizeram coral, criaram uma TV ao vivo, em pleno deserto, para que tudo fosse usado para tranquilizar aquela aldeia. Mas a água continuava baixando, e a tensão só aumentando.

Quando a fé cegou a razão

Como sinal de desespero, todos resolveram ajoelhar-se no dia do centenário daquele poço, e com os braços esticados clamavam por ajuda. Naquela noite choveu.

No dia seguinte todos estavam felizes, agradecendo por aquele milagre. Passado algum tempo, a água do poço secou.

Aquele bom homem saiu a procura das outras famílias que tomaram da água daquele poço. Pediu à cada um deles um copo com água, visto que a sua família estava em necessidade.

Estupefato, ele viu portas se fecharem, pessoas o ignorarem, e outros se desviarem dele. Mas ele não acreditava no que estava acontecendo.

Quando o fanatismo corrompeu a mente

Voltou ao poço, pegou uma corda e desceu até o fundo dele. Examinou cada tijolo, pedra, areia e terra dentro daquele poço.

Resolveu então cavar mais alguns metros para ver se poderia encontrar água. Tentou convencer outros a ajudá-lo, mas não houve quem sequer lhe desse as mãos.

Sua situação ficou desesperadora, ao ponto de acordar cedo todos os dias e a primeira coisa a fazer, entrar dentro do poço e sentar-se no fundo dele, sonhando com o dia em que aquele poço voltaria a dar água.

Estava tão concentrado naquilo que deixou de se alimentar. Todos foram deixando aquela aldeia, inclusive a sua família.

Quando nada mais restava, nem mesmo a fé

Sozinho, fraco e sonhando com a volta daquela água, em um determinado dia, ao tentar escalar o poço como fazia sempre, desde que a água começou a faltar, não teve forças. Sua voz estava fraca, ninguém poderia ouvir seu pedido de socorro.

Naquele mesmo dia ele morreu, dentro do mesmo poço que em épocas anteriores lhe proporcionou muitas alegrias.

Morreu dentro do mesmo poço que havia sido a principal fonte de alegria e exultação daquela aldeia, onde famílias festejavam suas amizades.

Esse é o destino daqueles que possuem o dom de amar, mas que não estão preparados para mudanças. Sábio é aquele que vai cavar um outro poço para fornecer-lhe água quando a água do poço anterior vai começando a baixar. Identificar a solução do problema e não somente a causa, antes que não exista mais nenhuma alternativa a não ser aceitar o que a vida lhe trouxer.

Isso é o que diferencia os fanáticos dos que são fiéis. O fanático não muda as suas ações. O fiel se apega aos seus princípios mas ajusta-se a realidade de novos tempos.

Mude enquanto há tempo para mudar.

Leandro Tissiano

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